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PodTEXT | Depósitos a Prazo: segurança ou perda silenciosa?

Os depósitos a prazo continuam a ser a escolha preferida de poupança de milhões de portugueses. São simples, parecem seguros e não dão dores de cabeça. Mas será que essa segurança não lhe está a sair demasiado cara? Foi batido um recorde histórico: os portugueses têm mais de 200 mil milhões de euros em depósitos nos bancos (à ordem e a prazo). Isso é um sinal de quê?

PodTEXT | Depósitos a Prazo: segurança ou perda silenciosa?

[Introdução - Pedro Andersson]

Olá! Sou o Pedro Andersson, jornalista especializado em finanças pessoais, e aproveito as minhas viagens de carro para falar consigo sobre dinheiro. Desta vez quero falar-vos sobre o produto preferido dos portugueses, depósitos a prazo.

E porque é que escolhi este tema? Porque quando estou a gravar este episódio, no início de 2026, os portugueses têm nos bancos mais de 200 mil milhões de euros em depósitos.

Ora, este valor é um valor absurdamente alto. Significa que os portugueses, pelo menos um grande número, conseguem poupar. É verdade que nem todos têm as mesmas poupanças. É muito diferente ter um depósito a prazo de três mil euros, cinco mil euros ou dez mil euros ou ter depósitos a prazo, por exemplo, de 50 mil euros ou mais de 100 mil euros.

Aquilo que vos quero dizer é que se há pessoas que têm 100 mil euros num depósito a prazo, estão mesmo a usar mal, pelo menos estrategicamente, as suas poupanças. E porque é que é um erro estratégico? Porque embora 1% de 100 mil euros seja um valor relevante, a questão é que podia ter duas, três, quatro ou cinco vezes mais esse dinheiro todos os anos.

Há cada vez mais pessoas a alertar para esta ilusão de segurança, porque uma coisa é a segurança de ter lá o dinheiro, claro que é verdade que o dinheiro não vai desaparecer. As pessoas muitas vezes põem o dinheiro em depósitos a prazo porque têm medo de que esse dinheiro possa desaparecer.

Se o banco for à falência, está o valor garantido até aos 100 mil euros por cada banco e, portanto, já sabem que é quase uma impossibilidade técnica perder esse dinheiro. É verdade que não perdem esse dinheiro, mas perdem o dinheiro no valor que ele representa.

Alguns de vocês podem pensar que se o dinheiro está seguro, está a render juros e, portanto, não está parado, então qual é o problema? É preciso que todos entendamos de uma vez por todas que o perigo aqui é invisível. Não está ninguém a ir à sua conta retirar o seu dinheiro, o problema é mais grave do que isso.

É um ladrão invisível que se chama inflação. E a inflação está, mais uma vez no momento em que estou a gravar este episódio, sensivelmente nos 2%.

Ou seja, se tiver dez mil euros no banco a render 1% líquido – mesmo que esteja a render 1,7% ou 1,8% lembre-se sempre que tem de dar 28% ao Estado –, significa que ganhou cem euros num ano. O problema é que a inflação, que é uma espécie de imposto invisível, reflete-se nos preços que pagamos pelas coisas do dia-a-dia, como no supermercado.

O nosso salário não aumentou a par com a inflação, portanto, o que acontece é que ganhou 100 euros em juros num ano, mas, entretanto, por causa da inflação, os seus dez mil euros desvalorizaram 200 euros. Os mesmos dez mil euros estão lá, mas a inflação comeu-lhe 200 euros de valor.

Todos os anos que fizer isto, todos os anos em que mantiver o seu dinheiro em depósitos a prazo a render menos do que a inflação, é mais um ano em que esteve a perder valor do seu dinheiro. Isso é uma ilusão que nunca ninguém nos explicou na escola.

Quem é que está a ganhar dinheiro com o seu dinheiro? Os bancos. Sempre que põem dinheiro num depósito a prazo, quem está verdadeiramente a ter lucro são os bancos. E estamos a chegar a uma situação absolutamente extraordinária que é os bancos têm dinheiro a mais.

Eles usam o nosso dinheiro para ganhar dinheiro. Os bancos estão com excesso de liquidez o que, dito de uma forma simplista, significa que não sabem o que fazer ao dinheiro. E o que é que eles fazem? Dão umas migalhas, os tais 1%, aos clientes para terem lá o seu dinheiro estacionado.

Os bancos estão a tentar arranjar maneiras de ganhar dinheiro com esse dinheiro. Mas isso é o trabalho deles, é o negócio deles. Nós estamos simplesmente a oferecer-lhes, na prática, dinheiro grátis para eles conseguirem aumentar os seus lucros. Até quando é que vamos fazer isto? Não sei.

Porque, repare, isto não é uma crítica, porque sempre foi assim. Isto é uma questão cultural, mais até do que de literacia financeira. E isto porquê? Porque os nossos pais habituaram-se aos depósitos a prazo porque eram, de facto, um bom produto. Porque os juros eram altos, de facto o dinheiro rendia, a inflação era baixa.

Os bancos tinham estabilidade, tinham segurança, havia um contacto personalizado com os bancos e as pessoas que tinham lá dinheiro sentiam que havia alguém no banco que se preocupava com elas. Era lá que compravam a casa, que pediam todos os créditos. Havia uma relação de confiança que atualmente, convenhamos, já não existe.

Portanto, é normal que os nossos pais nos tenham passado esta mensagem implícita ou explícita de segurança dos depósitos a prazo. O problema é que agora a segurança mantém-se, não há aqui nenhum problema técnico, a questão é a rentabilidade e o aumento da inflação.

Em anos passados, com inflação de 5% ou mais, os juros eram completamente ridículos. Até fico doente cada vez que faço as contas ao dinheiro que se perdeu nessas alturas.

Qual é o incentivo que quero dar? É que não tem de tomar nenhuma decisão precipitada, os depósitos bancários têm o seu lugar, não são maus produtos na medida em que garantem a segurança do seu dinheiro e é melhor estar num banco do que no colchão em casa, mas servem para ter o fundo de emergência ou para dinheiro que vai ter de utilizar a muito curto prazo ou a médio prazo.

É para dar como entrada para uma casa? É para comprar um carro daqui a três anos? É para algo que já sabe que vai gastar nos próximos cinco anos? É para ter o seu dinheiro sempre disponível como fundo de emergência? Tudo bem, é para isso que servem os depósitos. Agora, se tiver lá todas as suas poupanças, está a desbaratar o seu dinheiro.

Pensa que tem o dinheiro garantido? Não tem. A única coisa garantida que tem é perder valor do seu dinheiro. E há cada vez mais pessoas a alertar para isto. E então quais são as alternativas? As alternativas são simples. No mínimo, os certificados de aforro nesta altura. Se a situação se alterar, alteramos também a nossa decisão.

O nosso dinheiro está às nossas ordens. Nós é que dizemos a cada momento para onde é que ele vai e ele tem de ir sempre para onde estiver a ter a maior rentabilidade, com o grau de garantia e de segurança que estamos dispostos a aceitar de acordo com o nosso perfil.

Reparem, se os certificados de aforro estão a render 2% nesta altura, mais os prémios de permanência, porque é que hei de ter o meu dinheiro em depósitos a prazo a render menos? E atenção que estou a falar de taxa bruta, nem sequer estou a falar de rendimento líquido.

É que a escolha para mim é tão óbvia que não percebo como é que os portugueses continuam a pôr dinheiro em depósitos a prazo, sendo que estamos a falar de poupanças de longo prazo.

É que há um erro muito comum, que é confundir segurança com rentabilidade. A segurança do capital não é a mesma coisa que garantir o nosso dinheiro no futuro. O dinheiro não desaparece nos depósitos a prazo, mas vale cada vez menos. É preciso que nos caia a ficha, que percebamos isto.

Garantia de capital não significa que o nosso capital esteja a crescer. Na maior parte dos casos acontece justamente o contrário, como já vos disse, é a garantia de perda de capital para a inflação. Sempre que não estiver, no mínimo, a render o mesmo que a inflação em termos líquidos, está a perder dinheiro.

Então, o que é que podemos fazer? Temos de andar sempre à procura de produtos específicos, nomeadamente de depósitos a prazo, porque às vezes vale a pena mudar de banco para fazer um novo depósito a prazo.

Há os chamados pica-taxas, que era uma figura que havia antigamente, que era uma pessoa que andava de banco em banco à procura da melhor taxa para pôr o dinheiro e mudava sempre quem encontrava.

Agora, o que é que acontece? Há depósitos que rendem até mais do que a inflação, em alguns casos, mas são promocionais. Ou seja, é só durante três meses, ou só durante seis meses, ou é só para novos montantes, ou é para montantes bastante elevados, ou seja, acima de 25 mil euros, ou acima de 50 mil euros, alguns até acima de 250 mil euros.

Portanto, tem de andar sempre à procura. Não tenha medo de mudar de banco, mas sempre tendo em atenção as comissões, porque há muitas situações em que vai ganhar mais no depósito a prazo, mas depois tem de pagar comissões de manutenção de conta mais caras.

Deixar tudo parado ou deixar tudo na mesma, não fazer nada, sabendo que tem lá o seu dinheiro no banco, num depósito a prazo a render uma miséria não é a melhor decisão. A decisão de não fazer nada para mudar isso está a custar-lhe muito dinheiro.

E quero dar-lhe uma outra alternativa, além dos certificados de aforro, que é pegar numa pequena parte desse dinheiro e experimentar produtos sem capital garantido. Alguém que tenha 10 mil euros para pôr num depósito a prazo, porque é que não experimenta, sabendo que corre o risco desse dinheiro desvalorizar bastante, mas também de valorizar bastante.

Portanto, pode pegar em mil euros, portanto, põe nove mil euros em certificados de aforro, e pega em mil euros e vai pôr, por exemplo, 250 euros num PPR, 250 euros num ETF S&P500, por exemplo, e outros 250 euros num fundo de investimento no seu banco. E outros 250 euros talvez até noutro ETF.

Tem várias alternativas para pôr o seu dinheiro, de facto, a render acima da inflação. Depois, a partir do momento em que percebe como tudo isto funciona, as escolhas começam a tornar-se cada vez mais simples e, sobretudo, mais eficazes.

Muito obrigado por me ter acompanhado em mais uma boleia financeira. Não há necessidade de perder dinheiro, mas também não há necessidade de arriscar demasiado, mas vamos tomar melhores decisões em relação ao nosso dinheiro.

Boas poupanças!

Aprenda a gerir melhor o seu dinheiro

Neste episódio do podcast Contas-poupança, faço uma pergunta simples, mas incómoda: os depósitos a prazo estão a proteger o seu dinheiro… ou a fazê-lo perder valor todos os anos?

Com exemplos concretos e contas fáceis de perceber, explico a diferença entre juros nominais e juros reais, o impacto da inflação no dinheiro parado e porque é que “não perder” pode, afinal, ser perder — só que de forma silenciosa.

Este episódio é especialmente útil para quem tem poupanças paradas no banco, para quem tem medo de investir e para quem quer perceber se está a tomar decisões conservadoras… ou simplesmente decisões caras a longo prazo.

No fim, deixo algumas pistas para avaliar se faz sentido manter o dinheiro em depósitos a prazo, quanto custa essa opção ao longo do tempo e que alternativas devem, pelo menos, ser analisadas antes de decidir.

Boas poupanças!


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