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Dois milhões têm PPR. Quantos estão a ganhar dinheiro? Conheça o comparador da CMVM

Em Portugal, cerca de dois milhões de pessoas têm pelo menos um PPR. O problema é que muitos não fazem ideia se estão a ganhar dinheiro… ou a perdê-lo. Um PPR – Plano Poupança Reforma – pode ser uma excelente ferramenta de investimento a longo prazo. Mas também pode ser um produto medíocre, com comissões elevadas e rentabilidades fracas, escolhido apenas porque foi o que o banco sugeriu. A diferença entre um bom e um mau PPR pode significar centenas ou milhares de euros ao longo dos anos. Conheça o novo comparador de PPR da CMVM, para escolher o melhor PPR compatível com o seu perfil.

Dois milhões têm PPR. Quantos estão a ganhar dinheiro? Conheça o comparador da CMVM

Veja a reportagem em vídeo aqui:

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Em Portugal, cerca de dois milhões de pessoas têm pelo menos um PPR. A maioria acredita que está a “preparar a reforma”. Mas poucos sabem responder a três perguntas simples:

– Quanto rendeu nos últimos 5 e 10 anos?
– Quanto paga realmente de comissões?
– Está acima ou abaixo da média do seu nível de risco?

Se não souber responder, está a investir às cegas.

O erro mais comum: escolher no banco sem comparar

Habitualmente, quando alguém decide fazer um PPR, dirige-se ao seu banco e pergunta: “Qual é o melhor que têm?” Essa é a abordagem errada.

O que deve fazer é exatamente o contrário: primeiro comparar todos os PPR disponíveis no mercado e só depois subscrever aquele que faz sentido para o seu perfil de risco. Hoje já é possível fazer isso gratuitamente, através de dois comparadores oficiais. Tem o da ASF e agora também o da CMVM. Ambos são oficiais e completamente isentos. A diferença entre um "bom" e "mau" PPR não é pequena. Pode representar milhares de euros.



Como funciona o comparador de PPR da CMVM

Há centenas de PPR em Portugal. Uns têm capital garantido e outros não. Uns rendem muito pouco e até dão prejuízo aos investidores e alguns são extremamente rentáveis. O problema é saber qual é o melhor para a sua situação, sem correr demasiados riscos.

O comparador da ASF não inclui todos os PPR existentes (só tem os que são supervisionados pela Autoridade de supervisão de Seguros e Fundos de Pensões). Para ter a visão completa, deve usar também o comparador da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que tem os cerca de 120 PPR ligados a Fundos de investimento, que não estavam no outro comparador. Com os dois comparadores tem todos os PPR em Portugal. Isto é extremamente útil.

A CMVM é a entidade que regula os mercados financeiros em Portugal. Os fundos PPR não têm capital garantido, mas historicamente são muito mais rentáveis. Agora já os pode encontrar todos na mesma plataforma e compará-los.

Para o encontrar, basta ir página da CMVM e escolher a pasta “Portal do investidor”. Em baixo, clica em "Comparador de instrumentos financeiros", e vai encontrar mais de 120 Fundos PPR em Portugal, cada um com as suas características, comissões e rentabilidades. Naturalmente, um dos critérios mais procurados é quanto renderam no passado.

Este valor que aqui aparece, já é após as comissões. Só não são contabilizadas as eventuais comissões de resgate, porque são muito raras neste tipo de PPR. Terá de ver no documento associado a cada PPR (IFI/PDF) todos os detalhes antes de o subscrever para saber se tem ou não tem.

Aqui pode:

– Comparar rentabilidades históricas (já líquidas de comissões de gestão)
– Ver o nível de risco
– Analisar as comissões
– Comparar apenas PPR com o mesmo grau de risco

Os dados são fornecidos pelos próprios gestores dos fundos, e as rentabilidades apresentadas já incluem comissões de gestão. Apenas eventuais comissões de resgate (que são raras) não estão refletidas nesses valores — por isso é essencial ler o documento informativo antes de subscrever.

Uma funcionalidade particularmente útil é inserir o nome de um PPR específico e ver como se comporta face aos restantes com o mesmo perfil de risco. Muitas pessoas ficam surpreendidas quando descobrem que o seu PPR está sistematicamente abaixo da média.

Capital garantido ou maior rentabilidade?

A maioria dos portugueses foge do risco. Por isso, os Seguros PPR com capital garantido continuam muito populares.

Mas capital garantido não significa boa rentabilidade.

Historicamente, os Fundos PPR (sem capital garantido) tendem a apresentar rentabilidades superiores no longo prazo. Em contrapartida, podem ter anos negativos.

Se o horizonte temporal for de 20 ou 30 anos, a diferença acumulada pode ser muito significativa.

Exemplo simples:

Imagine que investe 10.000 euros durante 20 anos.

– A 2,5% ao ano, o capital cresce para cerca de 16.386 euros
– A 5% ao ano, cresce para cerca de 26.533 euros

A diferença é superior a 10.000 euros.

Não é um detalhe. É praticamente duplicar o resultado.

Atenção: muitos Fundos PPR (sem capital garantido) têm historicamente rentabilidades médias superiores a 4%–6% no longo prazo. Com volatilidade, sim. Mas com crescimento real.

Se o horizonte é 20 ou 30 anos, a variável mais importante é rentabilidade média anual — não o conforto psicológico anual.

O impacto silencioso das comissões

Aqui está um dos pontos mais ignorados.

Suponha dois PPR com a mesma estratégia e rentabilidade bruta de 6%:

– PPR A cobra 0,75% ao ano
– PPR B cobra 2% ao ano

Diferença líquida anual: 1,25%

Em 20 anos, sobre 10.000 €, essa diferença pode representar vários milhares de euros.

Uma comissão aparentemente “pequena” tem efeito composto negativo. Todos os anos.

Antes de subscrever, deve confirmar:

– Comissão de gestão
– Comissão de depósito
– Comissão de subscrição
– Comissão de transferência

Tudo está no IFI (Documento de Informação Fundamental).

Pode mudar de PPR

Se já tem um PPR, não está preso a ele. Pode transferi-lo para outro mais rentável. A lei permite a transferência entre PPR, e em muitos casos não há custos (ou são reduzidos).

– Fundos PPR → sem custo
– Seguros PPR → pode existir comissão (normalmente até 0,5%)

Ignorar esta possibilidade pode significar desperdiçar anos de rentabilidade inferior. Se o seu PPR rende consistentemente abaixo da média do mesmo nível de risco, deve questionar-se. Ignorar esta possibilidade pode significar desperdiçar centenas ou milhares de euros ao longo dos anos.

Benefícios fiscais: a parte que muitos esquecem

Os PPR oferecem duas grandes vantagens fiscais:

1️⃣ Dedução no IRS
– Até 400 € (até 35 anos)
– Até 350 € (35 a 50 anos)
– Até 300 € (mais de 50 anos)

2️⃣ Tributação reduzida no resgate (cumprindo condições legais)
– 8% após 8 anos
Comparação: outros investimentos pagam normalmente 28%.

Exemplo

Se tiver 10.000 € de mais-valias:

– Num depósito a prazo ou ETF → paga 2.800 €
– Num PPR (após 8 anos, cumprindo regras) → paga 800 €

Diferença: 2.000 €.

Mas atenção: se resgatar fora das condições legais, pode perder os benefícios fiscais e pagar penalizações.

Se o resgate for feito dentro das regras (reforma, desemprego de longa duração, doença grave, entre outras situações previstas), a taxa sobre as mais-valias é bastante inferior à de outros investimentos.

Mas atenção: o objetivo principal do PPR é a reforma. Usá-lo como simples “conta de poupança” de curto prazo pode não fazer sentido. O PPR é instrumento de longo prazo. Não é uma conta à ordem melhorada.

Checklist prático antes de decidir

  1. Ver rentabilidade a 5 e 10 anos.
  2. Confirmar comissão total anual (TER).
  3. Comparar dentro do mesmo grau de risco.
  4. Avaliar consistência do gestor.
  5. Confirmar custos de transferência.
  6. Ver se está acima da inflação no longo prazo.

NOTA IMPORTANTE: Rentabilidades passadas não garantem rentabilidades futuras.

Decisões financeiras devem ser tomadas com números, não com base na simpatia do gestor de conta.

Um PPR não é um produto mágico. É um instrumento financeiro. Se for bem escolhido, pode ser uma das melhores ferramentas para preparar a reforma. Se for mal escolhido, pode passar anos a render menos do que devia — sem sequer perceber.

A informação está disponível. Se nunca comparou o seu PPR, não sabe se está a poupar, a investir e a ganhar dinheiro — ou apenas a alimentar um produto caro que está a dar lucro a outros e não a si.

Disponível online, livrarias e supermercados.