
Tem um frigorífico velho na garagem? Uma televisão antiga encostada na arrecadação? Ou um ar condicionado avariado que nunca mais foi retirado?
A partir de 1 de dezembro de 2026, entregar alguns destes equipamentos poderá dar direito a um desconto direto na compra de um aparelho novo. O Governo aprovou uma nova portaria (Link para a Portaria) que cria um sistema nacional de incentivos para a entrega de resíduos elétricos e eletrónicos.
Na prática, o Estado vai “pagar” para que entregue determinados aparelhos antigos nos circuitos oficiais de reciclagem em vez de os deixar abandonados, vendidos à sucata informal ou desmontados ilegalmente.
Mas atenção: há regras, limitações e alguns detalhes que podem fazer toda a diferença no seu bolso.
Quanto pode receber?
Os valores definidos na portaria são estes:
- 25 € por frigorífico
- 25 € por arca congeladora
- 35 € por ar condicionado
- 20 € por televisor
O desconto será aplicado quando comprar um equipamento novo.
Exemplo prático:
Imagine que vai comprar um frigorífico novo por 499 euros. Se entregar o antigo, poderá pagar 474 euros.
Não é uma fortuna. Mas é melhor do que pagar para se livrar do aparelho ou deixá-lo parado anos numa garagem. Ou, pior, poluir o ambiente.
Atenção: nem todos os aparelhos dão direito ao desconto
Este é um dos detalhes mais importantes.
O equipamento antigo tem de estar completo e inteiro.
Ou seja:
- não pode faltar o motor;
- não pode estar desmontado;
- não pode estar partido ao ponto de não ser identificável.
Isto significa que muitos equipamentos que acabam nas sucatas ilegais podem deixar de ser aceites no sistema.
O objetivo é claro: impedir que as peças mais valiosas sejam retiradas antes da entrega oficial.
O Estado quer travar um problema gigante
Esta medida não surgiu por acaso.
Portugal — tal como outros países europeus — tem um problema enorme com resíduos eletrónicos que desaparecem dos circuitos legais.
Frigoríficos e televisores antigos contêm:
- cobre;
- alumínio;
- metais raros;
- componentes eletrónicos valiosos.
Além disso, muitos aparelhos antigos têm substâncias perigosas:
- gases refrigerantes;
- óleos;
- materiais poluentes.
Quando estes equipamentos são desmontados ilegalmente:
- perde-se matéria-prima valiosa;
- aumenta a poluição;
- desaparece o controlo ambiental.
Na prática, esta portaria é uma tentativa de “convencer” as pessoas a entregar os equipamentos nos locais certos.
Há um detalhe muito importante que quase ninguém vai reparar
A portaria diz que o desconto pode até ser usado num equipamento diferente daquele que entrega.
Por exemplo:
- entrega uma televisão velha;
- usa os 20 euros para comprar um frigorífico.
Mas há uma condição: a loja tem de aceitar, porque o que a portaria diz é que o “normal” é ser na mesma categoria. Pode trocar de categoria, mas só se a loja aceitar.
Isto pode criar diferenças entre operadores. Algumas lojas poderão ser mais flexíveis do que outras.
Por isso, antes de comprar:
- pergunte exatamente como funciona;
- confirme se a loja aderiu ao sistema (não é obrigatório);
- peça tudo por escrito na fatura ou orçamento.
A loja tem de aceitar o aparelho mesmo que não tenha sido comprado lá
Isto é muito relevante.
Imagine que comprou o televisor há 15 anos noutra loja e quer agora comprar um novo noutro local. A loja aderente não pode recusar a retoma só porque o aparelho não foi comprado lá.
É um detalhe importante para evitar desculpas e recusas. Se for necessário, mostre a Portaria (tem o link acima).
O desconto pode não ser imediato
Há dois cenários possíveis:
Se entregar o aparelho na hora da compra
O desconto é imediato.
Se entregar depois
A loja terá até 5 dias úteis para devolver o dinheiro após validação do equipamento.
Isto significa que pode acontecer:
- pagar o valor total no dia;
- receber depois o reembolso.
Vale a pena confirmar este detalhe antes da compra.
O valor do incentivo é suficiente?
Muito sinceramente, acho que é pouco para mudar totalmente os hábitos. Há pessoas que já entregam aparelhos gratuitamente porque querem libertar espaço.
Mas também há muitos equipamentos que acabam no circuito informal porque:
- alguém os vai buscar a casa;
- pagam algum dinheiro;
- não há burocracia.
E aqui está o desafio desta medida: se o processo oficial for complicado, demorar ou tiver demasiadas regras, muita gente continuará a preferir o circuito paralelo ou simplesmente deixar na rua ao lado do caixote do lixo ou nos “Eletrões”.
Pode acabar por aumentar o preço dos equipamentos?
Nos primeiros 24 meses, o sistema será financiado pelo Fundo Ambiental. Mas depois os custos passam para os produtores e importadores.
Na prática, isso costuma acabar refletido nos preços finais.
Ou seja: parte deste “desconto” poderá ser financiada indiretamente pelos próprios consumidores no futuro, sem nos apercebermos. Mas um problema de cada vez…
O que deve fazer na prática
Se tem equipamentos antigos em casa, talvez valha a pena esperar por dezembro de 2026 antes de os entregar ou deitar fora.
Sobretudo:
- frigoríficos;
- arcas congeladoras;
- televisores;
- ar condicionado.
Mas mantenha-os completos.
Além disso:
- Compare preços entre lojas.
- Confirme se o desconto é real.
- Veja na altura se a promoção da loja já inclui o incentivo do Estado.
- Guarde comprovativos de entrega.
- Pergunte como funciona o reembolso.
Porque é muito provável que apareçam campanhas publicitárias confusas. Como por exemplo: “Desconto de 100 euros!”
Mas parte desse desconto pode afinal incluir este incentivo do Estado.
Posso entregar mais do que um equipamento?
Li a portaria na íntegra e o documento não estabelece, para já, um limite explícito do número de equipamentos que cada pessoa pode entregar, embora possam surgir regras operacionais definidas posteriormente pelas entidades gestoras.
Na minha opinião, seria muito mais interessante se eu conseguisse juntar 3 ou 4 equipamentos antigos, entre família e amigos, e conseguir levar um aparelho novo com um desconto - aí sim - relevante.
Assim que souber a resposta a esta pergunta, direi aqui.
O que esta medida mostra
Durante muitos anos, o lixo eletrónico foi tratado como “sucata”. Hoje, é cada vez mais visto como matéria-prima estratégica. Um frigorífico velho pode conter metais e componentes com valor económico relevante.
Por isso, esta medida não é apenas ambiental. Também acaba por ser económica. O Estado quer manter esses materiais dentro do circuito formal e evitar desperdício. Na prática, o Estado percebeu que o lixo eletrónico vale dinheiro.
Agora falta perceber se 20, 25, ou mesmo 35 € serão suficientes para mudar comportamentos.
Para já, o mais importante é isto: não desmonte nem entregue já os equipamentos antigos se estiver a pensar comprar novos depois de dezembro de 2026. Um frigorífico velho ou uma televisão avariada podem passar a valer dinheiro — e ao mesmo tempo ter um fim de vida muito menos poluente.













