As recentes tempestades e inundações em Portugal deixaram milhares de famílias com prejuízos. Casas destruídas, carros arrastados, património de uma vida comprometido em poucas horas. O dado mais preocupante é este: apenas cerca de metade das habitações em Portugal têm seguro multirriscos.
Quem tinha seguro recebeu dinheiro para reconstruir. Quem não tinha, ficou dependente da solidariedade, da família ou de eventuais apoios do Estado — que podem demorar ou simplesmente não chegar.
A pergunta é simples: a sua apólice protege mesmo?
Pode perder tudo em poucas horas
O caso de Jorge e Maria de Lurdes é um exemplo real do que pode acontecer. Viviam há mais de 50 anos na mesma casa. Depois da tempestade, surgiram rachas. Dias depois, percebeu-se que havia um deslizamento de terras. A Proteção Civil ordenou a saída. A casa terá de ser demolida.
Não tinham seguro.
Situações como esta não são exceção. Segundo a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, apenas cerca de 55% dos edifícios em Portugal têm seguro multirriscos.
Só 55% das casas têm multirriscos
Nos apartamentos é obrigatório ter seguro de incêndio nas partes comuns, mas acabam por optar pelo multirriscos porque oferece muito mais coberturas por um pequeno acréscimo de preço. Quem tem crédito à habitação também é obrigado a ter seguro multirriscos. Mas todas as outras situações dependem da decisão do proprietário.
Muitos consideram o seguro uma despesa desnecessária. Até ao dia em que precisam dele.
A casa é o maior investimento da maioria das famílias portuguesas. Décadas de esforço podem desaparecer com uma inundação, um aluimento de terras ou um incêndio.
O seguro multirriscos cobre o quê, afinal?
O seguro multirriscos habitação é, na prática, o único seguro contra inundações e fenómenos extremos que protege a estrutura da sua casa.
Regra geral, o seguro multirriscos inclui cobertura para tempestades, inundações e outros fenómenos da natureza. Mas não deve assumir isso à partida, sem confirmar. É fundamental analisar com detalhe a sua apólice.
Estas são algumas perguntas práticas que deve fazer ainda hoje:
– Tem cobertura para inundações? – Inclui aluimento ou deslizamento de terras? – Qual é a franquia em caso de sinistro? – O capital seguro corresponde ao valor real de reconstrução (está acima ou abaixo)?
Sismos exigem cobertura à parte
Há um detalhe que muitos desconhecem: os seguros multirriscos não incluem sismos por defeito. Essa cobertura tem de ser contratada à parte.
E apenas uma minoria das casas em Portugal (19% das habitações) está protegida contra risco sísmico.
Num país com histórico de atividade sísmica, ignorar esta cobertura é uma decisão que deve ser ponderada com consciência.
A seguradora paga a reconstrução, não uma casa nova
Outro erro comum é pensar que o seguro paga o valor de mercado do imóvel. Não paga.
O que é indemnizado é o custo de reconstrução da casa, não o valor comercial nem o terreno.
Por isso é essencial declarar o capital correto. Se segurar a casa por metade do valor de reconstrução, a seguradora pagará apenas metade do prejuízo. Chama-se regra proporcional, e está na lei.
Exemplo prático
Imagine que o custo de reconstrução da sua casa é 200.000 €. Se a tiver segurado apenas por 100.000 €, está a segurar apenas 50% do valor real.
Se tiver um prejuízo parcial de 60.000 €, a seguradora pagará apenas 30.000 €, porque só estava seguro a 50%. Os restantes 30.000 € terão de sair do seu bolso.
Para saber qual deve ser o valor seguro, pode usar o “Simulador do Custo de Reconstrução de Imóveis” da Associação Portuguesa de Seguradores. Basta pesquisar esse nome no Google e preencher o simulador com os dados do imóvel.
Verifique se o capital seguro está atualizado há mais de 3 ou 4 anos. O custo de construção aumentou muito nos últimos anos. Se não atualizou, pode estar subsegurado sem saber. No meu caso, tenho na apólice uma cláusula de atualização automática, assim não tenho de me preocupar com isso.
Confirme se a sua apólice tem cláusula de indexação automática ao índice de construção.
Atenção: não use o Valor Patrimonial Tributário (VPT) da caderneta predial como referência para o capital seguro. O VPT serve para calcular impostos (IMI), não corresponde ao custo de reconstrução. São coisas diferentes.
Quanto custa um seguro multirriscos
Um seguro multirriscos pode custar, em média, entre 150 € e 300 € por ano para um apartamento comum, dependendo da zona e das coberturas. A cobertura sísmica pode aumentar o prémio de forma significativa, especialmente em zonas de maior risco.
Isso significa que, por cerca de 15 a 25 euros por mês, pode proteger um património que vale centenas de milhares de euros.
O recheio da casa não está incluído por defeito
O multirriscos pode cobrir apenas o edifício. O recheio — móveis, eletrodomésticos, roupa, equipamentos — é uma cobertura adicional.
Se nunca analisou essa parte do contrato, vale a pena fazê-lo. Em muitas situações, o valor dos bens dentro de casa é significativo.
Franquias altas podem não compensar
Uma apólice mais barata pode ter uma franquia elevada. Isso significa que, em caso de sinistro, parte do prejuízo fica sempre a seu cargo.
Antes de escolher apenas pelo preço anual, analise: – Valor da franquia. – Limites máximos de indemnização. – Exclusões específicas.
O barato pode sair caro.
Seguro automóvel contra terceiros não paga danos causados por tempestades
Outro erro frequente diz respeito ao carro. O seguro automóvel obrigatório é o de responsabilidade civil (contra terceiros). Esse seguro não paga danos no seu próprio veículo causados por inundações, queda de árvores ou muros.
Se o carro foi arrastado pela água, o seguro contra terceiros não cobre.
Para estar protegido contra fenómenos da natureza, é necessária cobertura de danos próprios que inclua essa garantia. Vale a pena perguntar à seguradora quanto custa acrescentar essa proteção.
Sei que algumas seguradoras permitem incluir a cobertura de fenómenos da natureza no seguro contra terceiros. Pergunte.
Sem seguro, depende dos apoios do Estado
Quando não existe seguro, resta esperar por apoios públicos. Esses apoios podem ter critérios restritivos, limites máximos e prazos longos. Não é garantido que cubram a totalidade dos danos. Depender exclusivamente do Estado é uma estratégia arriscada.
Em caso de sinistro, registe tudo
Se acontecer um desastre:
– Tire fotografias e faça vídeos antes de limpar. – Não deite fora bens danificados sem autorização da seguradora. – Comunique o sinistro dentro do prazo previsto na apólice (geralmente 8 dias)
Esses registos são fundamentais para a avaliação dos prejuízos.
Conclusão: reveja hoje a sua apólice
Não pense que estas situações só acontecem aos outros. As tempestades recentes mostraram que qualquer região pode ser afetada.
O que pode fazer hoje:
- Confirmar se tem seguro multirriscos ativo. Se não tem, faça!
- Verificar se inclui fenómenos da natureza.
- Avaliar se precisa/tem condições para pagar cobertura sísmica.
- Atualizar o capital seguro para o valor real de reconstrução.
- Rever franquias e limites.
Um seguro pode parecer uma despesa durante anos. Mas no dia em que for preciso, pode ser a diferença entre recomeçar com alguma estabilidade ou perder o património de uma vida.
As tempestades não avisam. Tem de agir já. Não adianta tentar fazer um seguro depois dos danos terem acontecido. A pergunta não é se vai haver outra tempestade. A pergunta é se, quando acontecer, o seu seguro vai pagar os prejuízos.















