Podcast

PodTEXT | Vale a pena vender o ETF para investir em ações que estão a disparar?

Viu determinadas ações a subir 20%, 30% ou até 100% em poucos meses e começou a pensar: “Será que devo vender os meus ETFs e aproveitar esta oportunidade?” É uma dúvida cada vez mais comum entre investidores. Quando se vê amigos, colegas ou influencers a mostrar ganhos rápidos em ações “da moda”, é fácil sentir que está a perder dinheiro por continuar num investimento mais calmo e diversificado.

PodTEXT | Vale a pena vender o ETF para investir em ações que estão a disparar?

[Introdução - Pedro Andersson]
Olá! Sou o Pedro Andersson, jornalista especializado em finanças pessoais, e este é o Vamos a Contas, um episódio bónus, especial e semanal, do podcast Contas-Poupança. Respondo às vossas perguntas em áudio que enviaram para o número do WhatsApp 92 775 37 37. A sua pergunta é muito importante! Vamos à dúvida desta semana.

[Ouvinte do podcast]
Olá, bom dia, Sr. Pedro Andersson. Antes de mais, quero agradecer-lhe o trabalho fantástico que tem feito na literacia financeira, que acho que é de louvar. Acho que já se começam a notar algumas diferenças na sociedade por causa deste trabalho que tem feito.

No que diz respeito a mim, tenho-lhe a agradecer imenso porque comecei a ler os seus livros e, graças a eles, mudei algumas coisas no crédito à habitação e fiz algumas alterações. Muito, muito obrigado.

Lógico que também sigo outras pessoas que também fazem essa formação, mas tenho a agradecer-lhe imenso. Agora, queria colocar aqui uma questão.

Tenho estado a investir em Bolsa, especificamente na XTB, e tenho estado atento a estes últimos dias. Já vi que as farmacêuticas, os mercados, já estão a reagir. As farmacêuticas estão a começar a disparar.

A minha pergunta é a seguinte: é legítimo este pensamento? Tenho investido no S&P 500 um valor aceitável e estou com lucros de 1.200 e qualquer coisa. Neste momento, estou com uma margem de 20% de lucro. Se eu vender agora e pegar neste dinheiro, realocando-o, por exemplo, para as farmacêuticas que estão a disparar, é um pensamento correto?

Ou, se eu retirar dali dos ETF, vou perder? Queria ter a opinião de alguém mais especializado, logicamente, porque aqui o objetivo é rentabilizar o máximo que puder. Mas tenho ali os 20% de lucro. Se vender agora, tenho 20%.

Aquilo que aconteceu na pandemia anterior, há seis anos, é que, no pico da pandemia, as bolsas caíram drasticamente, inclusive o S&P 500, que penso que teve a maior queda da história, recuperando depois a seguir, como é lógico.

Portanto, o meu pensamento é: se eu vender, ganho agora 20% e pego nesse valor para alocar às farmacêuticas. No entanto, se houver uma queda grande no S&P 500, volto outra vez ao S&P 500.

Isto é correto? É um bom pensamento? Ou sou eu que estou a ser um bocado utópico? Agradeço a sua opinião. Muito obrigado mais uma vez e bem-haja. Continuação de bom trabalho.

[Pedro Andersson]
Olá! Muito obrigado pela sua pergunta. Fico sempre muito feliz quando ouço alguém dizer que finalmente descobriu como é que funcionam os investimentos.

Isso não quer dizer que corra bem, mas significa que perdeu o medo, resolveu experimentar e, até ao momento, aparentemente, está a ter lucro. Um lucro bastante superior ao que teria se deixasse o dinheiro parado à ordem, num depósito a prazo ou em certificados de aforro.

Cada uma destas ferramentas tem o seu papel e é importante para atingir cada um dos objetivos que nós temos. Agora, investir tem o básico que é preciso saber e depois, só a partir de um determinado nível de conhecimento e de experiência é que, na minha opinião, devemos começar a arriscar bastante mais e a arriscar em investimentos setoriais específicos e, eventualmente, até em ações de determinadas empresas.

Eu creio que, com o nível de conhecimento que tem, talvez ainda seja cedo para se aventurar um bocadinho fora de pé. Vou explicar-lhe porquê.

Em primeiro lugar, quero agradecer muito as palavras que disse no princípio, mas quero baixar aqui um bocadinho as expectativas quando disse que queria a minha opinião de alguém mais especializado nesta área dos investimentos. E isto serve para todos vocês.

Eu sou jornalista. Sou uma pessoa que está atenta à atualidade, tenta estar atenta à atualidade, e que tem uma curiosidade especial sobre questões financeiras relacionadas com finanças pessoais e investimentos básicos. Investimentos que pessoas normais fazem, como eu próprio.

Portanto, todos os conselhos, com aspas ou sem aspas, todas as informações que partilho são apenas baseadas no meu conhecimento e na minha experiência pessoal. Eu não tenho formação financeira, nem quero comparar-me a especialistas financeiros.

A única coisa que acho que tenho de bom, de talento, é conseguir explicar algumas coisas complicadas de forma simples, para que as pessoas entendam. E é nesse contexto que vou responder a esta pergunta.

O que lhe quero dizer é que, primeiro, há um conceito básico, quando começamos a investir, que é: cada vez que resgatamos, estamos a entregar uma fatia muito relevante dos nossos lucros ao Estado.

Ou seja, quanto mais estamos a comprar e a vender - neste caso, a vender -, cada vez que resgatamos estamos a entregar, à partida, 28% dos nossos lucros ao Estado. Portanto, esse lucro que referiu, de cerca de 1.200 euros, assim que resgatar, praticamente um terço já o perdeu e foi para o Estado.

O valor que a seguir vai reinvestir noutra ferramenta, seja ela qual for, não é esse valor do lucro. Mesmo que o invista agora. Porquê? Porque só vai pagar esses 28% no IRS do ano que vem.

Portanto, vai estar a achar que está a reinvestir em ações, em ETF ou em ferramentas relacionadas com a indústria farmacêutica esses 1.200 euros. Mas não. Está a investir esse dinheiro, sim, mas 300 euros, ou coisa que o valha, desse valor vai ter de os entregar ao Estado, sendo que o Estado não fez rigorosamente nada, não correu risco nenhum. Quem correu foi o nosso amigo ouvinte.

Portanto, ponto um: devem mexer o mínimo possível nos vossos investimentos atuais. Este é o primeiro ponto. Ou seja, sempre que quiser arriscar em mais alguma coisa, faça-o - isto é a minha experiência enquanto investidor doméstico, chamemos-lhe assim -, com dinheiro novo, com dinheiro fresco e diferente daquele que já tem investido.

A menos que queira desistir desse investimento. Aí, tudo bem. Se acha que aquilo já deu o que tinha a dar e não há mais por onde crescer, ou corre o risco de descer, ou acha que vai descer ainda mais e não há recuperação possível, então aí é resgatar. E, ao resgatar, depois, o que faz com esse dinheiro é consigo.

Mas essa é uma decisão à parte desta. Tirar dinheiro de um lado para investir noutro, quando aquilo que tinha estava a ter lucro, compreenda que está a desvalorizar o seu lucro atual.

Os investimentos são para resgatar, mas apenas quando atingimos os nossos objetivos. E, no caso do ETF S&P 500, tem de perceber porque é que pôs lá o dinheiro.

O ETF S&P 500, das 500 maiores empresas dos Estados Unidos, seja na XTB, seja noutra corretora qualquer, seja na DEGIRO, na Trade Republic, na Trading 212, em qualquer uma delas - não tenho ligação rigorosamente nenhuma, é só para dizer que existem várias ferramentas, porque o ouvinte mencionou aquela especificamente -, é um investimento a muito longo prazo, a décadas, para enfrentar quedas ao longo do tempo.

E, portanto, se houver quedas, como essa que mencionou, então nessa altura pode decidir pôr mais ainda nesse S&P 500.

Esta é a primeira parte da resposta à sua pergunta. A segunda parte é para alertar para um perigo que mencionou e que acendeu logo aqui luzes vermelhas em todo o lado: quer investir em ferramentas relacionadas com as farmacêuticas porque estão a disparar.

Meus amigos, quando estão a disparar é porque já vai tarde demais. Nós temos de investir é antes das coisas dispararem.

Porque o grande erro dos investidores júnior, dos bebés investidores, é comprar quando está a subir e vender quando está a descer. Ou seja, cometem os dois erros capitais do investimento.

Então, para não corrermos esse risco, deve investir de forma regular na ferramenta que escolheu, que analisou e que acha que é melhor para o seu perfil. E, todos os meses, põe lá aquele valor que decidiu, aconteça o que acontecer.

E nos momentos de queda, uma vez que acredita naquele ETF, naquele fundo PPR, naquele fundo de investimento, naquela ação, então nessas alturas põe mais do que aquilo que decidiu pôr regularmente.

Depois, vejo aqui um outro perigo. Há pessoas que, e a comunicação social - infelizmente, contra mim falo -, também tem aqui um bocadinho de culpa nisto, vão atrás do que está a acontecer no momento.

Esta situação específica parece-me ser um fenómeno completamente diferente da Covid-19. Portanto, este “disparar”, como lhe chamou, tão depressa sobe como depressa pode descer. Isto é como um foguete que rebenta lá em cima e depois a cana cai. A menos que, de facto, a situação se prolongue.

Mas não me parece que esta seja uma situação que leve a retirar um investimento de muito longo prazo para investir numa ferramenta que tem uma perspetiva de crescimento rápido, mas de muito curto prazo, e que pode não acontecer.

Depois, há aqui um outro detalhe que quero acrescentar para tornar esta nossa análise um bocadinho mais densa: tem de definir muito bem o que é que é investir em farmacêuticas.

É numa farmacêutica específica? Nas três maiores? Nas sete maiores? Em ações individuais de cada uma delas? É investir num ETF de farmacêuticas? Mas num ETF de farmacêuticas de que área? Porque há vários. Farmacêuticas de que região? Dos Estados Unidos? Da Europa? De um setor específico? Farmacêuticas relacionadas com vacinas, com a doença de Parkinson, com doenças oncológicas? Portanto, falar em farmacêuticas é dizer muito e não dizer nada.

É muito importante não irmos atrás de modas nem de dicas superquentes. “Agora é isto que está a dar. Olha que isto já cresceu 30%, mete lá dinheiro.” Está bem, mas já cresceu 30%. Portanto, se cair, não vai voltar aos 30% rapidamente. E, entretanto, deixou de ganhar no que tinha no ETF S&P 500.

Portanto, em resumo desta resposta: cuidado. Os investimentos são para manter a médio e longo prazo. Não é para andar a tirar e a pôr, a tirar e a pôr, a tirar e a pôr. Porque quanto mais mexemos, mais estragamos.

Essa foi a grande lição que aprendi e que está em todos os livros de finanças pessoais que analisaram carteiras de investimentos com décadas. Ou seja, as carteiras de investimentos que mais cresceram, analisando as décadas anteriores, são de pessoas que nunca mexeram ou até que já morreram.

As pessoas que menos mexem são as que melhores lucros têm. Porque pode acertar nas primeiras quatro vezes. À quinta vez, vai perder tudo o que ganhou nas quatro anteriores. Infelizmente, é o que tem acontecido.

Portanto, a minha dica, a minha sugestão, a minha opinião, que vale tanto quanto a vossa - não é a opinião de um especialista com conhecimentos financeiros académicos, é apenas experiência vivida -, é esta: concentrem-se em um, dois, três investimentos, reforcem-nos mensalmente e, sempre que houver quedas, confiando que essas ferramentas são para manter durante muito, muito tempo e que têm uma perspetiva séria, credível, de crescimento ao longo do tempo, reforcem nas alturas das quedas.

Quando está a crescer, não troquem por outros. Se quiserem investir em novas ferramentas, é com dinheiro novo, dinheiro fresco, e não com o dinheiro que já têm e que está a usufruir daquela magia que é o juro composto.

Porque cada vez que resgatam, o juro composto volta à estaca zero. É tudo aquilo que não devemos fazer.

Muito obrigado por me ter acompanhado em mais esta boleia financeira. Espero que estas conversas sejam úteis para perder o medo de investir. Investir pode ser com 100 euros, para começar, em entidades credíveis e nunca esperando ter lucros milagrosos.

Cuidado com as burlas, nomeadamente algumas que andam aí com inteligência artificial e que usam a minha cara, a minha imagem e até a minha voz.

Portanto, cuidado com isso. Pense pela sua própria cabeça. Há sempre o risco de perder dinheiro, mas também há o risco de ganhar dinheiro. E é sobre isto que vamos falando, com conhecimento. Um bocadinho hoje, um bocadinho amanhã, e vamos aprendendo também com as nossas próprias experiências.

Não se esqueça de que pode enviar as suas perguntas em áudio para o número do WhatsApp, que é o 92 775 37 37.

Boas poupanças!

Aprenda a gerir melhor o seu dinheiro

Será mesmo uma boa estratégia vender ETFs para apostar em meia dúzia de ações que estão a disparar? Ou é precisamente assim que muitas pessoas acabam por perder dinheiro?

Neste episódio do podcast Contas-poupança, explico-lhe as diferenças entre investir e especular, porque os ETFs continuam a ser uma das ferramentas mais eficazes para a maioria das pessoas e quais são os riscos de tomar decisões com base na emoção, na ganância ou no medo de ficar de fora.

Falo também do impacto fiscal de vender ETFs, dos erros mais comuns de quem tenta “apanhar o comboio” demasiado tarde e de como criar uma estratégia que consiga manter durante muitos anos — mesmo quando o mercado parece enlouquecer.

Porque investir não é ganhar mais num mês. É conseguir construir património durante décadas sem destruir o seu plano pelo caminho.

Boas poupanças!

Partilhe este podcast com os seus amigos.

Este episódio contou com sonoplastia de Filipe Cruz (IG: @filipe.cruz470)

Já sabe que às quartas-feiras respondo às vossas perguntas. Saber é poder (nas finanças pessoais também). Disponível nas principais plataformas de podcasts:

🟢🎵 Spotify

📱🎵 iTunes

📺▶️ YouTube


Para além do episódio principal às segundas-feiras, às quartas-feiras respondo às vossas perguntas em áudio.

ENVIE A SUA PERGUNTA EM ÁUDIO (gravada) PELO WHATSAPP 927753737


Aproveite a minha boleia financeira (gravo em áudio uma “conversa” no carro enquanto faço as minhas viagens e faço de conta que você vai ali ao meu lado) e veja como pode aumentar-se a si próprio. São uma espécie de programas de rádio para escutar enquanto faz outras coisas. Subscreva o podcast na plataforma em que estiver a ouvir para ser avisado sempre que houver um episódio novo. Não estranhe ouvir o motor do carro, buzinadelas e o pisca-pisca. Faz parte da viagem.

Boas poupanças!

Disponível online, livrarias e supermercados.