Combustíveis

O preço dos combustíveis subiu dia 1 de janeiro — quase sem ninguém dar por isso

Desde 1 de janeiro de 2026, o preço dos combustíveis em Portugal ficou um pouco mais caro. Não foi por causa do petróleo, não foi por causa das marcas nem por causa de guerras ou decisões da OPEP. Foi por causa de uma decisão administrativa do Estado português, aprovada discretamente e aplicada automaticamente. E com toda a legalidade.

O preço dos combustíveis subiu dia 1 de janeiro  — quase sem ninguém dar por isso
Canva

Desde 1 de janeiro de 2026, o preço dos combustíveis em Portugal ficou um pouco mais caro. Não foi por causa do petróleo, não foi por causa das marcas nem por causa de guerras ou decisões da OPEP. Foi por causa de uma decisão administrativa do Estado português, aprovada discretamente e aplicada automaticamente. E com toda a legalidade.


O que mudou exatamente a 1 de janeiro

O impacto é pequeno por litro, mas é real, permanente e cumulativo. É de apenas cerca de 1 cêntimo (0,8 cêntimos), mas fontes no setor disseram-me que algumas marcas arredondaram para 1 cêntimo (não sei quais).

O que aconteceu? Entrou em vigor a Portaria n.º 1/2026/1, publicada em Diário da República, que aumentou a taxa cobrada pela emissão de títulos de biocombustível e de baixo carbono para 1,80 euros por unidade. Isto acontece todos os anos e equivale - de uma forma simplista - à atualização do ISP pela inflação. É só uma comparação, não é exatamente assim.

Até aqui, estes títulos já existiam. Ou seja, as petrolíferas têm de pagar uma espécie de taxa pela poluição que causam (taxa de carbono). O que mudou (e muda todos os anos a 1 de janeiro) foi o preço que as empresas passam a pagar por cada título — um custo que, na prática, acaba sempre por ser incorporado no preço final do combustível. Ou seja, quem paga é o consumidor. Nós.

Além disso, a portaria determina que a taxa passa a ser atualizada todos os anos pela inflação, com base no índice de preços no consumidor (sem habitação), divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística.

Ou seja, mesmo que tudo o resto fique igual, este custo vai subir automaticamente todos os anos.


O que são estes títulos (em linguagem simples)

Os títulos de biocombustível e de carbono são documentos emitidos pelo Estado que comprovam que as empresas do setor energético estão a cumprir as metas legais de incorporação de energias renováveis nos combustíveis.

Traduzindo:  quem vende combustíveis em Portugal é obrigado a provar que está a misturar biocombustíveis ou a compensar emissões. Para isso, precisa destes títulos. E agora paga mais por eles. Não é uma opção. É uma obrigação legal.

Este aumento é independente das flutuações dos preços dos combustíveis e vai durar todo o ano. Aplica-se no ISP. O governo dirá - penso eu - que não é um aumento de impostos, mas apenas a atualização da fórmula do ISP prevista na lei.


Porque é que isto faz subir o preço dos combustíveis

As empresas não absorvem estes custos por altruísmo: somam o custo ao total; diluem-no por litro; refletem-no no preço final ao consumidor.

O Ministério das Finanças estima que o impacto direto seja inferior a um cêntimo por litro. Tecnicamente, é verdade. Mas isso não quer dizer que seja irrelevante.

Um aumento pequeno:

  • aplica-se a todos os litros vendidos;
  • acontece todos os dias;
  • acumula com outros impostos e taxas (IVA);
  • passa despercebido, mas nunca é revertido.

Este artigo é só para lhe explicar porque os preços dos combustíveis aumentaram no dia 1 e para ter mais literacia sobre como se formam os preços dos combustíveis. É importante também perceber que há situações em que não é possível poupar. A solução é procurarmos aumentar os nossos rendimentos e cortar no que não é tão necessário. Este aumento aplica-se a todas as marcas, mesmo as mais baratos no país, embora algumas possam absorver esse custo de outras maneiras. O que conta é o preço final no painel à entrada do posto de combustível.


Isto não tem nada a ver com o preço do petróleo

Este é o ponto mais importante para quem abastece o carro e olha para o painel de preços.

Mesmo que o petróleo desça, os mercados estabilizem, as marcas façam campanhas, este custo mantém-se.

É um aumento estrutural, decidido por via administrativa, completamente independente das matérias-primas ou da concorrência entre gasolineiras.

Por isso, quando se ouviu dizer que “os combustíveis subiram” no dia 1, a razão está aqui.


A única margem de manobra possível

Perante este tipo de aumentos, não há como negociar o preço do litro. A única defesa possível continua a ser a de sempre:

  • comparar preços entre postos;
  • evitar abastecer em locais sistematicamente mais caros;
  • reduzir consumos onde for possível;
  • planear deslocações.

Não é uma solução milagrosa, mas é a única forma de contrariar estes aumentos silenciosos que não aparecem nas notícias.

Disponível online, livrarias e supermercados.