A lição que o meu pai me ensinou com uma mesa de Ping-Pong

O tempo é mais precioso do que o dinheiro

AVISO: Este artigo é para gente lamecha. Se não é dado a lamechices está dispensado(a). Isto não tem a ver com poupança. Quando muito terá uma conta mas será lá mais para o fim.

De vez em quando o meu lado nórdico (o meu pai era sueco) quebra e o lado português do coração largo vem ao de cima. De lidar com o dinheiro não aprendi muito com o meu pai. Aliás a minha mãe queixava-se que, como o meu pai era estrangeiro e o câmbio na cabeça dele de coroas para escudos era por vezes complicado, alguns comerciantes aproveitavam-se dessa situação e por isso preferia ser ela a fazer as compras.

Adiante. O meu pai era um génio do “Faça Você Mesmo”. Se era preciso fazer uma coisa ele fazia. Na aldeia onde vivíamos (Paúl, no sopé da Serra da Estrela), as criações dele eram um espectáculo para os habitantes da terra.

Nos dias quentes de Verão todos paravam para ver na ribeira do Paúl uma canoa feita com uma chapa de zinco dobrada ao meio apertada nas pontas e impermeabilizada com alcatrão. Os remos também fomos nós que fizemos. Com os ângulos “profissionais” e tudo.

Outra vez, com dois tubos de canos grossos de plástico preto (com um palmo de raio) usados nas canalizações, com um maçarico fechou as extremidades na vertical para “cortarem” melhor a água, prendeu-os com umas tábuas como se fosse um catamaran e colocou por cima uma bicicleta em que a roda de trás tinha pás que movimentavam a embarcação ribeira abaixo e ribeira acima. Estávamos nos anos 80 e eu era um rapazito.

Outra vez decidiu pintar o carro (um SIMCA 1000) à mão com uma trincha. Naquele tempo não havia pinturas metalizadas. E não é que ele fez aquilo com uma tal perfeição que ninguém notava que tinha sido pintado à mão?

Outra vez, comprou uma placa de madeira de MDF e colocou-a em cima de umas pernas de madeira feitas por ele. Comprou uma fita de um palmo de rede de plástico (daquelas que serviam para fechar as galinhas no galinheiro) e com umas peças de metal prendeu-a à placa de madeira.

Pegou num pedaço de “platex” e recortou duas raquetes de ping pong. Tudo com medidas oficiais. E muito perfeitas, com cabo e tudo. Pintámos a placa de madeira de “verde ping-pong”. Demorou dias e dias a secar. Nos primeiros tempos a bola não saltava porque a tinta ainda “colava”. Ajudei-o a fazer isso tudo. Jogámos horas e horas de ping pong durante anos no sótão de nossa casa. Essa mesa serviu depois para juntar amigos na minha adolescência e a mesa ainda lá está hoje encostada a uma parede.

Já não me lembrava disto

Na semana passada, fomos visitar uns amigos e vi que tinham uma mesa de plástico de picnic no jardim que servia para jogarem ping pong com os filhos e veio-me isto tudo à memória.

Na semana passada, decidi ir com o meu filho em busca dessas memórias perdidas. Fomos a um Leroy Merlin, AKI , MaxMate desta vida e comprei a maior placa de madeira que encontrei, dois cavaletes, depois fomos a uma loja dessas de desporto e compramos a rede, as raquetes e umas bolas de ténis de mesa.

 

Que bem que me soube fazer uma coisa diferente com o meu filho. Sim, temos as Wii, as Playstation, as consolas e os telemóveis, mas há coisas que com pouquíssimo dinheiro nos fazem voltar ao principal de tudo: fazer coisas juntos. Há coisas que o dinheiro não consegue comprar. Como o tempo e a partilha.

O miúdo tem 13 anos e joga bem. O mais novo ainda não chega à mesa :).

 

A lição que o meu pai me ensinou, sem o saber, é que é no processo de fazer as coisas que encontramos o que é realmente importante na vida. Hoje em dia parece mais fácil comprar já tudo feito. E habituamo-nos a encarar esses gastos como necessidades, quando na realidade há coisas que podemos e se calhar devemos fazer por nós próprios e com os nossos. E o mais extraordinário é que ganhamos muito mais do que o que poupamos.

Placa de Madeira – 8,50 €

2 cavaletes – 3,50 € X 2 = 7 €

Rede – 8 €

Raquetes e bolas – 8 €

Total: 31,50 €

(Podia ficar mais barato se fizesse tudo em casa com materiais reciclados, mas o dinheiro também serve para gastar nestas pequenas coisas).

Acabamos de jogar, encostamos tudo à parede.

Fim da lamechice.

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12 comentários em “A lição que o meu pai me ensinou com uma mesa de Ping-Pong

  1. António Neto Reply

    Viva, passei hoje na MaxMat (30€) e numa carpintaria (50€) e não encontrei nenhuma placa de madeira, mdf ou contraplacado a esse preço. Pode dar-me uma ajuda em relação ao material e onde o comprou.
    Obrigado.

  2. Filipe Almeida Reply

    Excelente! Tenho uma memória semelhante. E com mesas de ping-pong.
    Um dia, o meu pai descobriu uma placa de madeira que se dobrava a meio com dobradiças. Não sei se era de tamanho oficial, mas convenci-o a usá-la como mesa. Lá fomos comprar umas raquetes, bolas e uma rede que, por não ser uma mesa perfeita ficava sempre meia inclinada ajudando o jogador do lado contrário. Exactamente com os cavaletes a segurar lá ficou durante anos na cave dos anexos dos meus pais. E passei horas infinitas a jogar com os meus amigos. Naquele tempo era um luxo ter uma ‘mesa’ de Ping-pong! Nunca a pintei mas passou-me pela cabeça, sim.
    Anos depois, quando todos nós fomos crescendo e indo para outras escolas e outras vidas a mesa foi perdendo utilidade. Um dia, o meu pai precisou de tapar uma área qualquer e, à revelia, destruiu a mesa. Fiquei destroçado. Ao ponto dele me prometer que um dia me comprava uma a sério.
    Nunca chegou a acontecer. E passados quase trinta anos já lhe perdoei, claro.
    Hoje preparo-me para comprar a minha primeira moradia. E ao ler a reportagem, além de me fazer recordar o episódio, levou-me a decidir que na nova casa, vou fazer exactamente a mesma coisa e criar a minha mesa de ping-pong, para poder jogar com o meu filho, que ainda tem oito meses, mas um dia será melhor jogador que o pai.
    Obrigado Pedro. O meu Pedro agradece. 🙂

  3. João Reply

    Belíssimo trabalho. Eu ainda aparafusada umas ripas por baixo, de forma a dar rigidez estrutural, caso contrário ela vai começar a encurvar entre os cavaletes.

    • Pedro Andersson
      Pedro Andersson Post authorReply

      Tenho uma outra placa mais pequena para por por baixo ao meio. Mas foi a primeira vez que a montei… Com essa placa por baixo fica exatamente com a altura das mesas oficiais 🙂

  4. Lurdes Lopes Reply

    Obrigada pela partilha.
    No fundo, no fundo qualquer um de nós tem necessidade de ser lamechas ou que sejam lamechas consigo, é o que faz de cada um “humano”.

  5. Sandra Martinho Reply

    Grandes ideias Pedro. Sem dúvida a construção em família tem outro sabor. Parabéns.

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