Conta-quilómetros – A minha conversa (em OFF) com um inspetor de um Centro de Inspeções

O problema é grave, não é mito urbano

Não identifico o inspetor do Centro de Inspeções por motivos óbvios. São eles que apanham os casos que é possível apanhar. Mas a conversa é representativa do panorama em Portugal. Tive autorização para reproduzir a conversa omitindo todos os dados de identificação.

Fui contactado pelo inspector, para me explicar que mesmo que quisessem não podem denunciar os casos porque não têm autorização para isso. Não é uma deficiência que tenha a ver com a segurança “formal” do veículo. Mas têm de a registar num documento interno.

Uma conversa sobre os conta-quilómetros

Segue a conversa:

 Inspetor

Boa noite, relativamente ao procedimento de inspeção no caso de adulteração dos kms, os centros de inspeção só devem anotar em relatório interno a discrepância. Não há deficiência a atribuir nem deve ser anotado no Certificado de Inspeção. Sou inspetor há já vinte anos e num determinado período tínhamos indicação do IMT para fazer a anotação em observações complementares, mas a determinada altura tivemos indicação para não o fazer.

 Olá. Alguma explicação para isso?

 Inspetor

Só mesmo questionando o IMT. Se calhar terá sido na mesma altura em que se consegue saber o histórico pagando. Esta questão levanto-a eu sem qualquer análise.

Os procedimentos estão descritos no Manual de Procedimentos de todos os Organismos. Não depende, ao contrário do que tenho visto nos comentários, da vontade do inspetor. Poderá também ter sido pela ausência de deficiência a atribuir. A deficiência mais aproximada seria a de “funcionamento deficiente do conta kms”, mas também não seria correto e poderia trazer dissabores ao inspetor.

E para que serve esse relatório interno com essa adulteração?

 Inspetor

Só para salvaguardar o inspetor. Para, perante uma fiscalização, notar que foi visto. No caso de haver necessidade em tribunal de haver uma prova física desse reparo.

Mas anotam sempre?

 Inspetor

Sim. Mesmo quando há troca de quadrante. O que também acontece.

Pela sua experiência, o caso é grave e representativo ou é uma espécie de mito urbano?

 Inspetor

É grave, representativo e está banalizado entre os vendedores de automóveis. Os particulares não tanto. Existem aqueles casos da barreira dos 200 mil, também já apanhei, mas raros. Mas mais difíceis de descobrir são realmente os das empresas de aluguer que o fazem antes da primeira inspeção. São veículos quase novos, mas com muitos kms.

Um por dia?

 Inspetor

Pode dizer-se que sim.

Só consigo ou no seu centro de inspeção?

 Inspetor

Na totalidade do dia. Num centro a fazer cento e poucas Inspeções. Mas mais do que um por dia. Depois também depende do centro onde se trabalha. Se se trabalha com muitos stands ou particulares. Há centros mais urbanos do que outros é isso também vai influenciar.

O seu é urbano?
 Inspetor

Arredores de (uma cidade grande).

1 por dia x 200 centros, dá 73 mil casos por ano. Mas são todos casos novos ou todos os anos dão pela alteração antiga?

 Inspetor

Só vemos a última Inspeção. Pelo certificado apresentado e na falta dele pelo sistema do IMT. Pode acontecer que, se o veículo já fez no nosso centro uma Inspeção anterior à última, e foi alterado o número de kms, o próprio sistema interno dá o alerta. Mas só temos que verificar a anterior.

  • Fim da conversa.

Em resumo, se o que este inspetor refere for representativo, podemos estar a falar de mais de 70 mil novos casos por ano de carros “martelados” e apanhados pelos Centros de Inspeção, mas que não são denunciados publicamente. Fora os que não são apanhados por terem sido adulterados antes da primeira inspeção. Só para irem pensando no assunto.

Isto parece-me muito grave. É uma prática geral nacional. Acho que andamos (quase) todos com carros novos muito velhos. E muito contentes com as nossas pechinchas

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5 comentários em “Conta-quilómetros – A minha conversa (em OFF) com um inspetor de um Centro de Inspeções

  1. Marco Lopes Reply

    Isto é um absurdo! Então porque é que a informação da discrepância dos KM não é facultada ao cliente?? Lá está… talvez por agora ser VENDIDA para poder ser depois revendida! Isto tem de ser exposto ao tribunal constitucional para averiguações!!!

  2. João Martins Reply

    Boa noite Pedro.
    Antes de tudo, os meus parabéns pelo excelente trabalho que faz em prol do bem de todos os portugueses. Daria um excelente ministro das finanças.
    Agora sobre este tema tão critico e importante.
    Existem modelos de automóveis, por exemplo: Ford Fiesta do ano de 92 e creio até 98, e os VW Golf 3 de 92 a 97, estes não todos, depende da marca do quadrante, que quando atingem a barreira dos 300.000 kms, estes voltam a 0. No caso dos Fiestas, só mesmo controlando nas inspeções, mas mesmo assim, pode dar lugar as dúvidas pois o contador ainda é dos antigos (Não digital).
    No caso dos Golf 3, há forma de distinguir pois o quadrante é digital e quando ultrapassa a marca que referi acima, desaparece a indicação “Total” no display. Eu tenho um exemplo disso. Um dos meus carros teve numa certa inspeção 280.000 kms e atualmente tem 40.000. Nas inspeções posteriores a viragem, nunca me foi questionado o que quer que fosse relativamente aos kms tendo sido registados os visíveis aquando das inspeções.
    Claro que atualmente os automóveis somam os kms sem este erro, se podemos assim chamar, mas quero só dar a conhecer casos em que acontece mesmo por sistema.
    Muito obrigado e continue com o seu óptimo trabalho.
    Cumprimentos

  3. Vera Palminha Reply

    Gostava de saber se os inspectores podem dar-nos essa informação aquando da inspecção.
    Comprei carro há dias e temo que tenha sido martelado (azar meu não ter visto a reportagem atempadamente).

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